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GRAMADO, O TRILEMA DA HUMANIDADE E A DIVERSIDADE - por Glaucio Binder PDF Imprimir E-mail

Binder foto reduzida

Glaucio Binder - presidente da FENAPRO

 

GRAMADO, O TRILEMA DA HUMANIDADE E A DIVERSIDADE

Estive em Gramado, no XXI Festival de Publicidade, agora em junho de 2017.  Por três razões diferentes.  Reunião da Fenapro, reunião da CNCS e receber uma homenagem da ALAP, como publicista latino-americano, fato que muito me honrou, certamente. E no meio disto tudo, tem o festival, palestras, eventos paralelos, networking etc, etc, etc...

Mas, quero passar um resumíssimo de duas coisas que vi e que me impactaram bastante. A palestra de abertura, proferida pelo Walter Longo, presidente do Grupo Abril, e o encerramento com a Regina Casé, ambos aplaudidos de pé por cerca de 800 pessoas, inclusive muitos figurões da nossa atividade.

Longo falou do trilema da humanidade. É trilema porque não é problema e nem dilema. Neologismo criado com propriedade por Longo.

O primeiro item do trilema diz respeito a outro neologismo: “Exteligência”, que seria um fenômeno consequente da enorme capacidade de encontrarmos qualquer conteúdo no ambiente on-line, o que tirou do indivíduo a necessidade de armazenar no nosso HD pessoal, informações que podem ser encontradas a um clique nos diferentes devices que nos cercam. Ele lembrou que, há algum tempo, precisávamos armazenar informações como afluentes do Amazonas, tabela de Mendelson entre outras inutilidades do dia a dia. Ocorre que este fenômeno também reduziu muito a capacidade do indivíduo de fazer sinapses, de desenvolver curiosidade e, consequentemente, encontrar saídas novas para problemas. A tese dele é que a tal “exteligência” está inibindo a nossa natural inteligência. Um alerta interessante para que as novas gerações se mantenham curiosas, caso contrário podemos atrofiar nossa capacidade de desenvolvimento.

O segundo, ele chama do fenômeno das tribos. É uma outra descrição da tese do filter buble, no qual algoritmos orientam nosso conhecimento. E cada vez mais lemos e vemos somente aquilo que nos interessa, diminuindo nossa capacidade de receber diferentes aspectos, versões antagônicas de um mesmo fato, tornando nossas conclusões mais rasas e resultando nas discussões acaloradas nas redes sociais e muita  intolerância, porque cada um acredita com profundidade em diferentes teses. Provocando uma imunidade cognitiva.

O terceiro, vem da forte tendência do compartilhamento.  Aquele fenômeno em que acessar é mais importante do que ter. Carshare, bikeshare, Airbnb, Ifood e mais várias outras soluções tecnológicas que estão mudando a lógica do consumo. Um novo tempo que, do ponto de vista da evolução humana, não pode ser considerado ruim, mas  que a economia mundial não está preparada para absorver. Menos emprego, menos crescimento, mais crises, setores desaparecendo, funções sendo extintas.  Não dá para ser contra a tendência do “sharing”, mas ainda não temos saídas para os problemas sociais consequentes do movimento.

O trilema, então, é consequente da soma da “exteligência”, com o conhecimento direcionado por algoritmos e a tendência ao compartilhamento.  Três aspectos que colocam em cheque nosso futuro imediato; entretanto, ele mantém o otimismo, porque, na história da humanidade, grandes questões sempre foram resolvidas pelo ser humano e, naturalmente, soluções são consequência de problemas. Não existe solução, sem problema. Pessoalmente, acho que há aspectos que precisamos considerar para ampliar esta discussão, mas creio que a consciência sobre o trilema já é um avanço fabuloso para nos mantermos buscando conhecimento e fazendo sinapses, curiosos, com atenção às notícias que contradizem nossas posições individuais e procurando novas maneiras de garantir a sustentabilidade da raça humana.

Já a Regina Casé encerrou os três dias de festival com excepcional raciocínio sobre a importância da diversidade para a construção de um mundo melhor e – especificamente aqui no nosso mundinho da propaganda – como centelha fundamental para a criatividade.

Boa parte da palestra ela conta, da forma descontraída e divertida – próprio dela – como o DNA da diversidade se instalou na sua história. Mas eu quero destacar aqui três aspectos que – com o raciocínio do Walter Longo – podem fazer diferença nas nossas vidas:

Primeiramente, a conclusão óbvia que o somatório de experiências diferentes é o território mais fértil para o surgimento de ideias mais ricas; em outro momento ela nos lembra  quanto ficamos animados quando encontramos pessoas iguais a nós, com mesmos gostos, percursos de vida e conclusões semelhantes, que formamos grupos no FB e no WhatsApp e depois até excluímos alguns porque achamos eles não são tão iguais como imaginávamos. Ela nos provoca dizendo que a distância de um comportamento assim para a de um homem bomba é curtíssima. O objetivo dele também é exterminar aqueles que acha diferentes do seu grupo; e, ao final, faz uma proposta divertida de VAMOS ENLOUQUECER OS ALGORITMOS, como uma contrarreação ao filter buble, ao comportamento de tribos que tem nos colocado permanentemente em posições extremadas. No palco ela interpreta os algoritmos do Spotify, que enlouquecem com o seu gosto pessoal por tantos gêneros musicais e ri das propostas de amizade do Facebook, que colocam lado a lado mendigos da periferia com um milionário marchand inglês. Para fechar ela reproduz uma frase do Gil que achei muito inspiradora e que sintetiza bem a importância de nos misturarmos: “As pessoas sabem o que querem, mas também querem o que não sabem.”

 
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