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A verdade com que eu concordo - por Glaucio Binder PDF Imprimir E-mail

clipping: Veículo: Jornal O Globo - data: 26/03/2018

 

É vital que a sociedade perceba que precisa de marcas sérias de mídia para avalizar ou desabonar o que circula nas redes. E que estas marcas tenham independência de fato.

 

O mundo debate intensamente a questão das fake news e polemiza com as pós-verdades, em uma sociedade rachada e polarizada politicamente. O embate sobre as responsabilidades ou o controle das falsas notícias e pós-verdades, contudo, requer uma compreensão melhor do que constitui a nossa base de informação, e de como esse debate deve ser balizado.

 

A enorme maioria do que fazemos está baseada em informações superficiais, que vão se sedimentando com as falsas notícias e reforçando nossas crenças infundadas. Temos crenças que nos acompanham ao longo da vida e que são consequência de nossa personalidade, nosso caráter e nossa própria história. Torcemos para que estejam certas, mas, como somos superficiais na maioria dos temas, também acreditamos em coisas erradas. Quando alguém configura uma opinião sobre um assunto que não domina, tem enorme possibilidade de produzir uma análise equivocada.

As fake news são fabricadas para reforçar conceitos e fazer com que pessoas as compartilhem. Nesse contexto, o filter bubble — como Eli Pariser definiu o efeito causado pelos algoritmos que nos fazem receber notícias parecidas, sintonizadas com nossos perfis e gostos, sejam elas verdadeiras, falsas ou pós-verdades — apenas acentua o mesmo ponto de vista, amplificando nossas crenças superficiais. E o próprio filter bubble produz grupos com visões opostas, gerando sociedades rachadas e a polarização. Ou seja, reforça as visões que cada um tem de seu lado, com mensagens que promovem sempre a mesma percepção e eliminam o debate plural. Isto é ruim para nós e a democracia.

É comum nas redes sociais as pessoas se indignarem e dizerem que “são todos bandidos”, enquanto outras afirmam que “é tudo manipulação, golpe”. Ambos os lados se mostram estupefatos pelo fato de o outro não perceber aquilo que considera verdade. Todos, portanto, têm absoluta certeza de teses diametralmente opostas, que são reforçadas porque leem os mesmos pontos de vista e recebem fake news e pós-verdades focadas em suas crenças.

E se a falta de conhecimento nos leva a ter uma compreensão parcial, tendenciosa e equivocada, isto reforça a necessidade de olharmos para a importância da imprensa, dos produtores de notícias, os verdadeiros curadores de reais notícias.

É obrigação das grandes marcas da imprensa criarem processos investigativos que deem profundidade à análise de cada assunto. Elas sempre foram vitais para a formação do caráter das sociedades em que estão inseridas.

Nestes novos tempos, da dança das redes sociais, precisamos de uma imprensa mais criteriosa, mais profunda e mais crítica, com necessidade de mostrar sempre lados opostos sobre um mesmo assunto. É vital que a sociedade perceba que precisa de marcas sérias de mídia para avalizar ou desabonar o que circula nas redes. E também que estas marcas tenham independência de fato. Para que isso aconteça, a publicidade exerce um papel fundamental na sustentabilidade dos veículos e na garantia da sua independência.

De qualquer forma, sonho com o dia em que cada um de nós será mais criterioso no compartilhamento de informações, e que teremos consciência da superficialidade de nossas opiniões. Que sejamos críticos com tudo que recebermos. Especialmente com o que reforça as nossas teses.

 

Glaucio Binder é presidente da Federação Nacional das Agências de Propaganda e da Confederação Nacional da Comunicação Social




 
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